Poeira no Vento
(Cansado)

Estou cansado.

Cansado desta sociedade que se julga tão civilizada. Desta espécie humana que se julga tão sábia e que se auto destrói junto com a Terra por mera ganância e egoísmo.

Cansado de seguir sistemas e padrões, dados como "a verdade absoluta", implantados por seres tão pensantes e errantes como nós.

Cansado de tanto ódio mútuo; de tanto abuso do poder de grandes corporações, governantes, ditadores, monarcas e daqueles que intitulam-se líderes de qualquer outra coisa que seja.

Cansado de viver entre esta grande massa que preocupa-se apenas em seguir vivendo sua vida, crescendo e reproduzindo-se sem nunca ter olhado para o céu e se perguntado: "O que eu faço aqui? Qual o sentido de tudo isso? O quão (in)significante sou eu perto deste universo? Afinal, o que sou eu?"

Cansado de ver a natureza pagar pelas ações de engravatados que acreditam estar enriquecendo em cima dela.
Pobres coitados.
Realmente acreditam que riqueza é ter um bocado de cédulas de papel e um punhado de algumas moedas de metal.
Mal sabem eles que as verdadeiras riquezas da vida não podem ser compradas ou conquistadas, apenas adquiridas através do tempo e da sabedoria.

Cansado de tanta desonestidade e de tanto falso moralismo; de falsos profetas que usam da pouca bondade que resta nos corações dos homens para manipulá-los em nome da fé - e de seu próprio bolso.

Cansado de ver tanta idolatria ao palpável, a corpos sarados e a rostos bonitos; e tanto desprezo a mentes pensantes e a bons corações.
É antigo o ditado que diz que não se deve julgar um livro pela capa, mas vejo que a ignorância é mais antiga ainda.

Cansado de ver festanças, gula, luxúria, desperdício e arrogância, todos juntos em um mesmo lugar, seguido de aplausos; enquanto vejo famintos humildemente  se sujeitando a mendigar por "um grão de mostarda" sendo humilhados, seguido de risos sarcásticos ou pior: sendo vítimas de puro desprezo.

Cansado de mestres e doutores de nariz empinado; de títulos e honrarias destinados à homens que sabem tudo sobre sua área, mas nada sobre valores e honra.

Cansado de ver justos injustiçados e homens-abutre, que vivem à base da carniça dos outros, sendo glorificados e tidos como heróis.

Cansado de tanta briga por religião.
Religiões são como caminhos que nos ligam ao Absoluto e sua função é essa.
Portanto, não importa qual caminho siga, nem se vai ou não seguir um caminho. Todos levam ao mesmo lugar e cada um sabe a hora de trilhar o seu.

Cansado de tanto preconceito com o amor.
Sim, com o amor, que independe de gênero, idade, raça e sexualidade.
Algo tão belo, poderoso, grandioso, imensurável e inexplicável; e ainda sim, há quem tente rotulá-lo e definir o indefinível.

E por que não dizer cansado de preconceito?
Matamos uns aos outros por diferenças culturais, sociais, raciais, religiosas, de gênero e de tudo mais.
Pois eu vos digo: se em momento algum desejou o sangue de alguém por esse ser diferente de ti, corte a ponta de teu dedo e veja se o sangue que dele escorre é tão diferente do sangue do odiado.

Cansado desse extremo egoísmo que permite o doloroso sacrifício de uma vida animal inteira, em troca de um saboroso banquete de 10 minutos.

Cansado da falta de respeito do ser humano para com os demais animais e a natureza, sendo que foi graças ao estudo dos mesmos que construímos o mundo que conhecemos hoje.

Cansado de falar e não ser ouvido.
Cansado de apontar nossos defeitos e continuar sendo ignorado.
Cansado de calar e consentir.

Guiamo-nos imprudentemente com os pés apoiados no leme de um navio que beira o abismo.

Portanto, fitemos atentamente a vastidão do céu em uma noite estrelada - isto é, se for possível enxergar as estrelas em meio a tanta poluição a qual implantamos neste planeta - e sejamos mais comedidos.

Não somos "os grandes doutores", "as grandes modelos", "os grandes descobridores", "os donos da verdade".

Por fim, não somos "a grandiosa e sábia espécie humana".
"Tudo o que somos é poeira no vento."

© PAOLO VALLINARI 2020