PASSARINHO

Paolo Vallinari e seu pai, Valfredo Ettore Vallinari (✩ 04/10/1954 - † 28/05/2012)

A História

 

 

    "Hoje é dia 28/05/2016, e exatamente há 4 anos atrás, descobri como era perder um pai.
Tive que aprender a seguir em frente sem seus conselhos, sem suas piadas e principalmente, sem aquele abraço gostoso, único no mundo.
Naquele dia 28, vi muitos dos meus sonhos desmoronarem na minha frente: não teria mais meu pai presente no meu casamento, como um dia sonhei; meus filhos não conheceriam o seu avô (como ocorreu no meu caso, com o pai de meu pai, que por sinal, também faleceu quando meu pai tinha 17 anos); não teria mais aqueles conselhos sábios de quem sempre tinha a palavra certa, no momento certo; não teria mais meu companheiro de cantoria dos Beatles no carro, pra cantar junto comigo, a última frase de "In My Life", como costumávamos fazer todos os dias enquanto ele me levava pra escola (banda que por sinal, foi-me apresentada por ele e que veio a se tornar a minha favorita ao longo do tempo); teria que aprender a lidar com o amor sem meu maior conselheiro, que dominava bem a "arte da sedução" (risos); soube que ele jamais me veria tocar num show (sendo que não pôde ir no meu primeiro), coisa com a qual tanto sonhei, usando a guitarra dos sonhos que ele mesmo me entregou num natal, vestido de Papai Noel; e sobretudo, dentre tantas coisas, foi assustador pensar que "dentro de horas ou minutos" (como dito pela oncologista que dele tratava), eu faria parte daquele grupo de amigos que tinham perdido seus pais ainda jovens; pensar que dali pra frente, eu teria que me tornar um homem sem a sua ajuda ou intervenção.
Quase 10 meses depois de sua partida, com o Ukulele na mão e com o meu herói em meus pensamentos, veio essa música, letra e melodia, em questão de minutos.
Desde então, todo dia 28 fico de gravá-la e postá-la em homenagem aquele pequeno-grande homem (baixinho na estatura, mas com o maior coração que eu já vi em meus quase 22 anos de vida) com quem eu tive o privilégio de viver e chamar pelo nome de "pai" por quase 18 anos da minha vida.
Protelei, protelei e protelei, querendo fazer algo magistral, gravado em estúdio, produzido, mixado e masterizado, por ser um eterno perfeccionista. 
Mas aí percebi que os motivos por eu sempre protelar não era pra fazer bonito pra ele, mas sim, pra todo mundo que veria isso nas redes sociais.
E finalmente concluí que eu deveria fazer como eu faria pra ele, se ainda estivesse aqui: ao vivo, sem me preocupar com a qualidade da gravação ou do áudio, mas sim, com a mensagem que eu gostaria de passar pra ele.
Assim sendo, aqui está, finalmente, a minha homenagem ao meu eterno "Menino Passarinho", que era apaixonado tanto por esta música quanto por este simpático animalzinho, símbolo de inteligência, sabedoria, leveza, pureza, amizade e liberdade.
Não por acaso, a música dedicada ao meu pai se chama "Passarinho" e trata da eterna saudade e gratidão que sentirei por esse homem que tinha todos os atributos acima citados e que, por um momento, teve sua liberdade tirada de si, quando foi aprisionado a uma cama devido a sua enfermidade ("[...] quebrou a asa na vidraça e foi direto pra gaiola - do seu mundo, eterno azul, condenado à prisão, oh não [...]").
Por todo esse meu texto até agora pode parecer que eu ainda sofro muito por tudo isso, mas é justamente o contrário.
Hoje eu vejo claramente o quão grandioso meu pai foi até na hora de sua morte; e o quanto sua morte me ajudou tornar-me esse homem que hoje sou, fruto de seus exemplos e de suas lições.
Claro, seria maravilhoso poder tê-lo aqui hoje, mas entendo que a vida (e Deus, ou chame como preferir) tem planos e projetos que muitas vezes estão além da nossa compreensão, e tenho consciência que eu talvez ignorasse boa parte das coisas ditas e conselhos do meu pai se ele não tivesse se tornado o mártir que se tornou para mim.
Sim, um mártir, pois morreu mantendo sua dignidade, jamais indo contra seus princípios e valores para conseguir sustentar a mim e a minha mãe nos anos em que a vida foi difícil (e vamos dizer, beeeem difícil); difícil como alguns poucos amigos tem a verdadeira consciência de como foi.
Portanto, tudo aquilo que um dia foi dor e uma não aceitação dos fatos hoje eu chamo de gratidão. Gratidão pelo tempo que me foi permitido ter aqui com ele, ao invés de tristeza por não ter tido mais. Gratidão pelas tantas grandes lições que puder tirar através de seu caráter bondoso e indubitável, em tão curto espaço de tempo; enfim, gratidão pela oportunidade de ter o tido como pai.
E por fim, sou grato por ele ter recuperado a sua liberdade, por poder "voar" livremente pelos ares, sem dor, sem sofrimento ou tristezas; grato por ele ter se livrado da gaiola que foi a sua cama e ter seguido em direção à luz das estrelas, lugar ao qual sempre pertenceu (não a toa, minha avó, sua mãe, o dizia que ele era uma estrela; e não a toa, não tirava o seu colar de estrela).
"[...] Voa, voa, Passarinho, então."
Eu te amo, pai."

(Texto originalmente publicado na página do Facebook )

Curiosidade: Valfredo costumava dizer que uma das maiores injustiças e maldades que um homem podia cometer era aprisionar um pássaro numa gaiola; a maldade de aprisionar um animal cuja vida era baseada no vôo era, para ele, algo inconcebível.

Letra

 

Se você tivesse
Um mapa pra me encontrar
Um jeito de à mim retornar

Se você criasse
Asas pra poder voar
Um canto pra eu te escutar

Chamar
Chamar

Se você pudesse
Ao menos um dia voltar
Somente pra a gente brincar

De pai e filho
Pra a gente poder conversar
Pra a gente apenas se amar

Se amar
Se amar

Se você voltasse
Na forma de um passarinho
Meu colo seria o teu ninho

Se você me desse
Aquele abraço só teu
Aquele carinho só meu

Só meu
E teu

Mas se a vida te caçoa
E passarinho, não mais voa
Quebrou a asa na vidraça

E foi direto pra gaiola

Do seu mundo, eterno azul
Condenado à prisão
Oh não

Voa, voa
Passarinho
Então

Você merece
Um lugar na imensidão
Azul do meu coração

É você que aquece
O sonho de viver
Me diz
Que ao teu lado eu sempre te fiz

Feliz
Feliz

É você que brilha
No céu como uma constelação
É estrela em noite de escuridão

Se você soubesse
A falta que eu sinto de cá
Do canto do meu sabiá

Do meu sábio
Sabiá

Mas se a vida te caçoa
E passarinho não mais voa
Quebrou a asa na vidraça
E foi direto pra gaiola

Do seu mundo, eterno azul
Condenado à prisão
Oh não

Voa, voa
Passarinho
Então

Mas se a vida te caçoa
E passarinho não mais voa
Quebrou a asa na vidraça
E foi direto pra gaiola

Do seu mundo, eterno azul
Condenado à prisão
Oh não

Voa, voa
Passarinho
Então

Letra

 

Se você tivesse
Um mapa pra me encontrar
Um jeito de à mim retornar

Se você criasse
Asas pra poder voar
Um canto pra eu te escutar

Chamar
Chamar

Se você pudesse
Ao menos um dia voltar
Somente pra a gente brincar

De pai e filho
Pra a gente poder conversar
Pra a gente apenas se amar

Se amar
Se amar

Se você voltasse
Na forma de um passarinho
Meu colo seria o teu ninho

Se você me desse
Aquele abraço só teu
Aquele carinho só meu

Só meu
E teu

Mas se a vida te caçoa
E passarinho, não mais voa
Quebrou a asa na vidraça

E foi direto pra gaiola

Do seu mundo, eterno azul
Condenado à prisão
Oh não

Voa, voa
Passarinho
Então

Você merece
Um lugar na imensidão
Azul do meu coração

É você que aquece
O sonho de viver
Me diz
Que ao teu lado eu sempre te fiz

Feliz
Feliz

É você que brilha
No céu como uma constelação
É estrela em noite de escuridão

Se você soubesse
A falta que eu sinto de cá
Do canto do meu sabiá

Do meu sábio
Sabiá

Mas se a vida te caçoa
E passarinho não mais voa
Quebrou a asa na vidraça
E foi direto pra gaiola

Do seu mundo, eterno azul
Condenado à prisão
Oh não

Voa, voa
Passarinho
Então

Mas se a vida te caçoa
E passarinho não mais voa
Quebrou a asa na vidraça
E foi direto pra gaiola

Do seu mundo, eterno azul
Condenado à prisão
Oh não

Voa, voa
Passarinho
Então